quinta-feira, 19 de abril de 2012

SURPRESA!

Meus textos sempre vêm na minha mente nos dias em que vivencio grandes emoções, é fato. Tudo bem, As Arteiras têm sugado todo meu potencial criativo no momento, mas eu não poderia deixar de traduzir meus sentimentos em palavras, depois da noite de quinta passada, que me deixou com uma tremenda ressaca emocional de felicidade.
Era aniversário da minha amiga Viviane e estávamos embrenhados em uma árdua missão. Semanas antes, eis que surge um e-mail do Marcelo (ex-marido, amigo e pai de seu filho) nos pedindo pra organizar uma festa surpresa pra ela. Xande nasceu dois dias após o seu aniversário e desde então essa data vem sendo relegada a segundo plano. Nada mais justo que nossa amiga tivesse “aquela” festa, com direito a buffet, DJ, decoração e tudo mais que um aniversariante de 3.5 pode ter. Conto com a ajuda da Vane, fiel escudeira, economista, toda organizadinha, responsável pelas contratações. Me deixa com a parte mais gostosa da decoração, por favor!
Foram semanas trocando e-mails, checando pendências, quem ficou responsável pelo que, olha a lista de convidados, avisa as outras mães, não dá mole que é surpresa. Cecília deixar escapar, num dia na pracinha, sobre o presente coletivo. Vivi ainda pergunta do que estamos falando, mas Cecília louca inventa um “exame coletivo” (tenso) e disfarça.
O mais interessante de toda essa estória era a logística arquitetada pelo Marcelo. Viviane estaria em casa enquanto nós trabalharíamos como foragidas, no seu próprio play, numa versão tupiniquim de “Dormindo com o Inimigo”. Eu e Vane ainda perguntamos o que ela faria naquela noite, sugerindo até nosso costumeiro pastel no Adão, mas recebemos algumas desculpas esfarrapadas. Em nenhum momento ela nos contou dos seus verdadeiros planos – a ida ao teatro. Com Marcelo, é claro.

Na noite anterior, uma bomba – Cris me liga meio aflita, dizendo que tinha tido um probleminha com o bolo...
Cheguei cedo e pra tornar a coisa toda mais divertida, o senhorzinho da portaria era meio enrolado. Não me deixou entrar com o carro – “mas moço, eu preciso descarregar” – nem o cara do Buffet, nem a Vane com o restante das coisas (que incluíam barrinha de cereais e torradinhas light)... Depois, manda as chaves do salão, mas não da cozinha, peço a chave da cozinha, mas não manda as do banheiro. Grávida e banheiro são inseparáveis, lá vou eu perguntar sobre as chaves do banheiro... “A senhora não pediu”, como se ninguém precisasse ir ao banheiro durante uma festa... Dia quente, muito quente, torpedos do Marcelo a toda hora, tensão.

Vane me ajuda nas coisas que acho que ela é capaz. Fui acusada mais tarde de ser chatinha, afinal, ora bolas, existem talentos e talentos. O da Vane, definitivamente, não incluía colocar as florzinhas nos potinhos.
Finalmente sete horas e as pessoas foram chegando. Vito ficou com a árdua tarefa de buscar Fred e Juju na creche e depois nos contou a saga de controlar os pequenos no táxi, visto que a excitação deles para a festa surpresa – de quem era a festa, onde seria, vai ser na casa de festas – era a maior do que a de todos nós juntos.
Todos foram chegando... Não sei como Vivi não escutou a gritaria da criançada no play.
Chegado o momento torpedo do Marcelo, era pra todo mundo aguardar no hall do elevador. Abre-se a porta e aquele grito de “surpresa!” -  a cara da Vivi de espanto querendo nos convencer que sabia de tudo... Beijos, abraços, parabéns pra vc, mas ela não tinha noção que havíamos preparado muito mais praquela noite.
Vivi não pode conter as lágrimas quando viu a festa toda pronta.
Vane, a DJ da festa, preparou um setlist, que como disse Bochecha, não era de Deus. Uilliam assume o posto de barman e logo, logo várias caipirinhas de morango são servidas. As crianças correm ensandecidas pelo play, já sem camisa e descalças. Juju entra em crise de identidade ao ser barrada numa foto, a confraria dos homens já se reúne, e nós, as mães malucas, entre um crepe e outro, vamos curtir o som de nossa adolescência e juventude. Rolou passinho, break dance, Trinere, “take me in your arms” e aquela que por osmose habitou nossa mente durante o resto da semana: “my love, my girl, just like the wind”, do Tony Garcia – aquele, que ninguém sabia sua verdadeira nacionalidade. Hilário foi ver Bochecha dançando como a Phoebe de Friends, Vivi e Cris se acabando ao som da Pitty. Revendo as fotos, não tem como não conter o riso. Acho que as únicas sóbrias éramos eu e Manoela...
Vane senta no chão e começa a chorar... Bochecha, já bêbada, se senta ao lado dela tentando consolá-la, dizendo que era assim mesmo, que daqui a pouco ela e Gustavo fariam as pazes. Aninha não sabia que Vane estava chorando pq o Emelec havia virado o jogo nos últimos segundos e desta forma, o Flamengo havia sido eliminado das libertadores.
E de repente, Bochecha chora. Chora pq o Bruno é vascaíno e operou o joelho. Chora pq o cara da Oi TV não quis completar a instalação na sua casa e quis chamar a polícia. Chora pq a mistura de ansiolíticos e 5 caipirinhas nunca poderia dar certo. Chora pq Viviane diz que é pra ela não cortar a franja (como naquela combinação, já conhecida, de episódio de Glee mais garrafa de vinho). Chora pq está carente, chora pq alguém tinha que chorar naquele dia.
Bochecha vai pro banheiro com a Fer e horas se passam até que alguém se dê conta de que as duas estão tempo demais por lá. Enquanto Bochecha chorava (e dizia que ira morrer) Fer a consola, a lembra que tinha um filho pra criar, blábláblá, e sorte dela não ser eu pra lhe dar um tapas e mandar ela parar com aquela palhaçada...
Toca Michel Teló pras crianças, pra ver se ninguém vê Aninha sendo carregada pro carro. Enfim, Bernardo adorou a idéia de dormir na casa da Juju (“pq minha mãe desmaiou, tia Cris”) enquanto levavam Bochecha pro hospital, pra tomar glicose, quase em coma alcoólico.
Enfim, saldo da festa positivíssimo. Tudo deu super certo. Felizes e exaustas pela trabalheira física e emocional que nos rendeu essa festa.
Ano que vem, tem mais. 
Afinal, Vivi merece.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Álbum de fotografias


No meio das caixas ainda desembaladas, no meio do projeto de um novo lar, vejo, dentro de uma sacola, um álbum de fotografias. Poderia dizer que foi o acaso, mas você bem sabe que a curiosidade geminiana foi a responsável por tal investida.
Não, não se preocupe. Conheço os seus limites e, sobretudo os meus. Não vou além do que me permito.
Desfolho cada página, das poucas que restaram daquele álbum velho. Aquele de espiral, onde as fotos eram cobertas por folhas de plástico colante... que tinha uma foto de montanhas com neve na capa e uma contra capa azul... Algumas dessas fotos você tinha me mostrado noutra noite, se lembra? Você riu ao se lembrar das suas histórias...
Acho as suas fotos de bebê em preto e branco e me pego imaginando como serão as feições daquele que daqui a pouco irá chegar... Me pego analisando a sua beleza de menino, sua postura de rapaz, quase um adulto – quando os cabelos ainda eram dourados e cacheados, quando as roupas ainda eram estranhas, quando as responsabilidades não eram tantas...
Enfim, na busca de algo que definitivamente me lembrasse você consigo identificar aquele sorriso, lindo - talvez a única semelhança com o que ainda tenho.
Vejo fotos de um noivado. Vejo fotos de gente que não conheço.  Vejo fotos que não deveriam ser vistas (risos). E no afã da busca – busca pelo quê efetivamente não sei, algo seu, algo que reconheça como seu – vejo fotos de você. Vejo fotos de outras pessoas. Vejo fotos de outras pessoas com você. Vejo outras fotos de você, mas... era mesmo você?
Por mais que me esforce, não o reconheço. Tento vivenciar aqueles momentos, me transportando pra eles, tento sentir as emoções deles. Não posso. Talvez, porque naquele passado tão distante, onde éramos tão ausentes da presença um do outro - onde já existia uma saudade daquilo que não se conhece, uma ânsia da busca pelo que não se sabe – ainda não havia se formado esta estranha ligação que temos, e que mesmo que quase dissolvida por longos anos, às vezes, ainda me causa espanto... Ali não havia um mínino de “eu” na sua vida. Trato de afastar aquele pensamento egoísta, lembrando-me também dos meus próprios álbuns e das diversas fotos onde o tempo não permitia nenhuma presença sua...
De fato, compreendo que quem ali estava não era você, apenas uma parte... apenas aquela parte de experiências vividas. Apenas aquela parte da sua juventude. Apenas um pouco daquilo que hoje você é.  E se não houvesse aquela parte? Hoje, não seria você. Tudo o que você viveu te transformou no homem que é hoje. Nada poderia ser mudado. Sua vivências - as pessoas, as dores, as alegrias – são as grandes responsáveis pela formação do seu ser. Não poderia ser diferente. Não era pra ser.
Você chega, olho pra você. É aquele sorriso de menino ainda, são os mesmos olhos, a mesma postura, mas diferente, mais completo. Adulto. Pleno.
Que bom. Que bom termos vivido tudo o que vivemos para sermos o que somos. As experiências, assim como as fotos – e as lembranças, e as pessoas, e as dores e as alegrias – irão, certamente, se amarelando e um dia se transformarão também num álbum velho – como aquele dentro da sacola – e só conseguirão retratar parte do que um dia fomos, ainda que tão importantes e tão dentro de cada um de nós.
Mas o sorriso, a essência, essa ainda estará ali, mesmo que confundida e camuflada pelos anos, pelas rugas, pelos vícios, pelos apegos e pelos cabelos brancos.
Fecho o álbum, devolvo a sacola para o lugar a que pertence. Sorrindo, entendo, finalmente o porquê de tantos desvios. Agora sim, estamos completos para vivermos o que for necessário.
Você voltou. Que bom.
Enfim, compreendo.
Agora sim, tudo está bem.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sopro de vida

Frederico me pergunta onde estamos e se ali seria a festa da Bisa. Respondo positivamente, subindo as escadas do casarão colonial avarandado, ainda apreensiva em saber como seria a sua reação. Fomos entrando e dando boa tarde pras pessoas que encontrávamos: velhinhos vendo TV aconchegados em suas poltronas e colchas quentinhas, alguns em suas cadeiras de rodas, enfermeiros, acompanhantes e parentes. Seguimos pelo corredor até o quarto da Bisa, que continuava deitadinha na sua cama, perto da janela, aguardando a chegada do seu vestido de festa.
Há muito tempo gostaria de escrever sobre sua vida, e acreditava que isso aconteceria quando ela se fosse. Mas minha avó tem sido muito mais forte do que se imagina e tem vencido os anos de forma corajosa, serenamente é verdade, mas com uma força inexplicavelmente superior a qualquer entendimento humano. Ela completou 91 anos neste último sábado. Minha tia, aquela que vive e dedica sua vida a cuidar dela, fez uma festa de aniversário lá no Solar, sua residência nos últimos tempos.
Naquela tarde, eu me contive por vários momentos para não chorar desesperadamente. Minha razão - por mais que eu me esforce - não consegue ainda compreender o porquê da vida ter que seguir desta forma e qual o propósito divino para esta tão longa caminhada. Porque uma “nesga” de vida ainda se alonga, com tanta dor, tanto sofrimento – e me questiono, ainda, se existe alguma dor e sofrimento nela, diante do estado de alienação constante desses últimos anos. No meu egoísmo, me pergunto que tipo de comemoração era aquela, se era correto que eu me sentisse realmente feliz por tê-la mais um ano conosco, naquele estado de inércia e ausência de lucidez, quase vegetativo.
O que sei da sua história (e que é parte pregressa da minha) é o que me lembro dos seus relatos e o que ouço, nos bate papos informais com minha mãe e minha tia. Mas seus pensamentos, lembranças e memórias estão todos há muito tempo prisioneiros na sua cabecinha, que ainda exibe a penugem de cabelos finos prateados, e me fazem recordar da minha infância, quando ela usava um shampoo cinza da L’oreal que deixavam seus cabelos lindos.
Ela foi fruto de um amor clandestino da minha bisavó com um árabe, é o que dizem, mas levou o sobrenome do padrasto. A prova da paternidade estrangeira estava em forma das cartas que Salomão a enviava, que mais tarde seriam destruídas pelo enteado. Foi criada por outra família, como rezava o costume nordestino de dar as crianças para viverem com parentes ou amigos. Me lembro dela me contando sobre a única boneca que tivera – um bebê de louça, que em algum momento não tiveram o devido cuidado e deixaram cair e quebrar. Me lembro dela me falar – quando eu já era moça – sobre um tal de Dedé, rapaz por quem ela foi apaixonada na adolescência.  Me lembro dela me levando pra dar arroz pros pombos no Largo do Machado, me lembro do macarrão com frango dos dias de domingo. Me lembro, já no avançar lento e cruel da senilidade, dela sentada na minha cama, remexendo seu tesouro - a sua caixinha de remédios.
Apesar de curiosa, sua história não teve nada de glamour. Casou-se, aos 17, um senhor viúvo de 50 e que tinha um filho de 18. Interesse? Não, meu avô não tinha dinheiro, não tinha posses, não tinha nada. Ele havia sido a única saída para aquela jovem, que não tinha família e vivia de favor na casa do irmão e da cunhada. Logo nasceu minha mãe. Depois, minha tia. Ainda me lembro da forma carinhosa e respeitosa como se referia a meu avô: sempre o chamou de “Seu Ricardo”. Meu tio nasceu, temporão, quando meu avô tinha 72 anos. E uma vez ela me confessou que “Seu Ricardo” só havia a “deixado em paz” após um incidente no banho, quando escorregou, quebrou a bacia e ficou acamado. Mesmo assim, ciumento como era, quem chegasse perto dela se tornava alvo certeiro das suas bengaladas, mesmo em cima da cama. Ela ficou viúva aos 54 anos e mesmo sendo nova, parece que já havia se acostumado com a privação e aceitação da forma em como a vida seguia, e não se casou novamente. Se ela foi feliz? Acho que sim. As pessoas acabam achando a felicidade simples na maneira como a vida é imposta.
Começou com leves esquecimentos, a perda da habilidade motora pra algumas coisas, algumas internações. Depois, a hipocondria, e a tentativa maluca de contenção da doença com novos medicamentos, esquecimentos totais. Diagnosticaram ser Alzheimer. Mas, pelo pouco que sei, Alzheimer não permite a memória recente e ainda me lembro dela chamando pelo Frederico, após os dias de visita na casa da Bisa, onde ele, ainda de fraldas, subia pela cama e por cima dela, para enchê-la de beijos e carinhos.
Frederico volta do salão de almoço com as mãos cheias de salgadinhos. Pouco tempo e ele já se sente em casa, conversa com os outros velhinhos, deitando na cama deles, e sai pela porta do quarto, aventurando-se atrás da “tia-dinha” pelos corredores do Solar. Minha mãe, o vestido e o bolo chegam, e minha avó é arrumada pra festa: vestido florido, cabelos penteados, sapatinhos de lã, como aqueles de bebê. A colocam na cadeira de rodas e é levada para o salão, onde um senhor também de cadeira de rodas é nosso DJ. As músicas variam de várias versões do “parabéns a você” aos mega-hits de Chiquinha Barbosa – o aniversário da minha avozinha era o acontecimento do dia para todos no Solar.
As perguntas do meu filho são muitas: porque a Bisa faz “assim” com a língua, se ela fazia isso também quando era nova, como ela fazia para passear, como ela pedia pra ir ao banheiro, como ela comia, se ela estava chorando - ao avistar uma lágrima que caía dos seus olhinhos quase sem cílios. “Ela está emocionada, Frederico” - Tia-dinha havia explicado, e depois de outras tantas explicações, ele chega a humilde conclusão de que alguma coisa no cérebro da bisa tinha se quebrado, por isso ela hoje vivia como bebê.
Na hora dos parabéns, a pergunta: “Quem vai apagar a vela, mamãe?”
Respondo: “Você, meu filho.”
E só posso concluir, daquele encontro de gerações, que ao soprar as velinhas dos 91 anos da Bisa, Frederico havia lhe dado toda a energia e alegria da sua juventude e certamente, como num passe de mágica, mais alguns longos anos de vida.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

E viva a beterraba!


É o segundo dia e já estou descabelada.
Não sei o que é pior, se a ansiedade ou a abstinência... acho que uma coisa leva à outra, né? E nessa simbiose, quase posso sentir o chocolate derretendo na minha boca, tamanha é a vontade de devorar uma barra inteira. A minha vida toda lutei com a balança – você pode me dizer que não sou gorda, e realmente não sou, mas só eu sei como é difícil aceitar que aquela calça jeans está tendo uma “certa dificuldade” para fechar... a idade colabora, os 17 quilos adquiridos na gravidez também... o bombardeio de hormônios dos últimos meses, idem... então, decidi, mais uma vez, deixar pra trás as guloseimas e a cervejinha noturna diária, e me entregar de cabeça e sem reservas ao alface e a rúcula.
Na primeira vez que me aventurei por essas bandas, há mais de 10 anos, 8 quilos desapareceram por completo, sem muito esforço. Na segunda, foram 4 quilos – e você pode achar que 4 quilos não é nada, mas são esses mesmos 4 quilos que me perseguem desde que Frederico nasceu. Eles não se desapegam. Criaram uma certa dependência comigo, sabe? Rezo todos os dias para que eles caminhem para a luz... Mas, nem reza forte está adiantando...
Confesso que estou um pouco mal humorada, nada diferente do meu normal. Mas imagine alguém mal humorado e com fome? Sou eu. Parece que quando estamos nos reeducando, TUDO passa a ser mais gostoso e mais irresistível ao nosso paladar - apesar de estar me alimentando bem e comendo de tudo o que gosto de comer. Mas num dá, né? Num dá pra gente cair dentro do chocolate, e depois passar fome durante o resto da noite. Num dá pra cair de boca no pudim de leite e depois ficar regulando o pão do lanche... Hoje vai rolar sopinha de lentilha na janta, que faz volume e tem poucas calorias, só pra dar aquela tapeada básica no estômago (que cá pra nós, é meio limitado e muito fácil de ser enganado).
Ele está aqui, bem ao lado, na minha gaveta. O restante de uma barra de Crunch, meu favorito. Na verdade, ultimamente, tenho preferido aquele branco da Hersheys, com pedaços de cookies, mas desde que tirei uma licença do chocolate, ou seja, desde ontem, o Crunch voltou a ser meu favorito. Até porque está a poucos centímetros do meu alcance. Você vai me dizer que isso é tortura, que não irei resistir... mas se tem uma coisa que sou - pelo menos com dieta - é disciplinada. Persistente e obstinada. Não fujo dos meus objetivos. E neste exato momento em que vos escrevo, meu objetivo maior é voltar a me sentir mais saudável e eliminar de vez esses quilos que insistem em me perseguir, apesar dos gritos de socorro do Crunch trancado na minha gaveta.
Claro, estou dramatizando. A luta é árdua, porém, a vitória é líquida (pelo menos seis copos dágua por dia) e certa. Porque na verdade a gente aprende uma vez e sabe e-xa-ta-men-te o que fazer pra emagrecer e voltar ao peso ideal. É só uma questão de foco.
E a recompensa? Será um brownie de chocolate quentinho com sorvete... pra saborear bem devagarinho, de colherinha!
Usando "aquela" calça jeans, é claro!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Baleia é a mãe!



O alvoroço se deu naquele início de noite, ainda dentro do carro. Frederico sempre “esquece” ou “não sabe” como foi seu dia, mas dessa vez, veio a pergunta, certeira, durante as manobras, já dentro da garagem:
- Mamãe, orca é baleia?
E a minha resposta, enfática, a queima-roupa, sem pestanejar:
- Claro, meu filho!
- Mas, a tia falou que orca não é baleia.
Uma pequena pausa e a mãe (nesse caso, eu mesma) indignada, responde, sem perder a veemência inicial:
- Não, meu filho, orca é baleia SIM.
E ele me retruca, com a mesma convicção, no auge da sapiência dos seus cinco anos:
- Mas a tia falou que não é – e ainda complementa – Ela falou que orca come foca, pingüim...
- Mas é baleia, filho!
- Mas a tia falou que não é...
Silêncio e revolta. Ainda bem que criança muda logo de assunto, mas aquela questão ainda fervilharia na minha mente pelo resto da noite.
Mais tarde, durante o encontro dos “amigõeszões” no shopping, enquete no mundo materno e a pergunta que não quis calar durante todas aquelas horas de sofrimento: seria a Orca uma baleia? Pra mim e para outras mães, o raciocínio era lógico, pois existia até um filme: “Orca, a baleia assassina”. Para outras, não tão convencidas assim, a semente da dúvida foi plantada... E no meio do debate intenso – e eu já pretendia denunciar a escola ao MEC – arriscávamos perguntar às crianças que corriam ensandecidas no meio do shopping, mas nenhuma delas quis nos confirmar nossas suspeitas iniciais, de que uma mutação genética havia transformado a família animal do ser em questão.
Eis que Cris, professora e telespectadora do Discovery Channel, nos informa que a tia estava certa. Orca não é baleia. Orca é da família dos delphinidae, nome artístico dos golfinhos.
Pára tudo! Como assim?
Plutão não é mais planeta, o trema caiu depois da reforma ortográfica e agora a Orca não é mais baleia? Senti como se os anos de estudo no ensino fundamental e médio (que na minha época se chamavam primário e ginasial) escorressem pelos meus dedos e de nada mais valessem.
Como explicado em e-mail posteriormente (mas só me convenci depois de checar o Wikipédia) a culpa foi do tradutor do filme que achou que “Orca, o golfinho assassino” não emplacaria na bilheteria. Quem sabe o sindicato dos golfinhos entrou com recurso e censurou o nome do filme em prol das orcas – na verdade a versão trash dos golfinhos, que não conseguiu trabalhar o sentimento na terapia e descambou pro lado negro da força. Me sinto, assim como alguns amigos com quem compartilhei essa descoberta, como a criança que acaba de descobrir que Papai Noel é na verdade um tio da sua amiga, que sua mãe pagou pra ir na sua casa entregar um presente (fato verídico)... me pergunto como Sérgio Chapelin estará se sentindo com a trágica notícia que abalou o mundo científico, após tantos anos apresentando a vida marinha no Globo Repórter. Meu amor pelos golfinhos, aqueles seres inteligentes e adoráveis, ficou profundamente abalado.
Ramon, meu biólogo favorito e primo, deveria ter me preparado para a notícia.
Com o meu mundo em pedaços sigo, preferindo me voltar para o traço do concreto, que é uma fórmula puramente matemática.
Enfim, baleia é a mãe, não a Orca.
Animal Planet, preciso de você.

Pela polêmica no FB e frases que contribuiram para este texto, meus agradecimentos: Tati, Pedro, Marcelo, Ma, Vivi, Bochecha e Suerda. E a Cris, que me explicou direitinho e tudo passou a fazer sentido.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

E o nome dele é... CONCA!

Sim, Dario Conca, o ex-jogador do Fluminense, atual jogador do Guangzhou Evergrande, da China.  A escolha do nome, não foi devido as habilidades do jogador, nem devido a paixão do Vito pelo Flu, sem dúvida – até porque Frederico é Botafoguense e, seguindo essa lógica, o mais adequado seria nomeá-lo Loco Abreu – mas pela própria sonoridade do nome. Questões fonéticas. Frederico sorriu satisfeito, após a sugestão. Con-ca. C-o-n-c-a. Conca, Conquinha. Gostoso de falar, gostoso de ouvir.
Nos conhecemos numa feirinha dessas de adoção, na pracinha do Bairro Peixoto. Ele estava lá quietinho, no meio do cercadinho, onde outros maiores faziam festa e se exibiam. Mas sua meiguice e carência nos cativaram. Seu nome, até então, era Sexta-feira, alusão ao dia da semana em que foi resgatado. Por ironia do destino, ele foi achado muito debilitado, a uma obra junto ao Arroio Fundo, rio que corre às margens do meu trabalho. Não sei por quanto tempo vivemos assim, lado a lado, sem saber da existência um do outro. Os veterinários dizem que ele tem entre 4 e 5 anos.
Mas tínhamos alguns problemas. Sexta estava em tratamento e só poderia ser adotado depois de 30 dias. Não sabíamos qual seria a reação do macho-alfa lá de casa – e não estou falando nem do Vito, nem do Fred, tô falando do Bambam mesmo. Marcamos um encontro na pracinha no final da tarde, e aparentemente após aquele cheira-cheira habitual, um no rabo do outro, seus rabinhos abanando informaram que haviam se dado bem. Afinal, a primeira impressão é sempre aquela que fica.
Quando Sexta estava pronto pra ser nosso, outro empecilho. Sim, a obra já havia acabado, mas o caos e o pandemônio da arrumação lá de casa ainda não haviam desaparecido por completo. Como receber mais um, quando ainda nos adaptávamos aquela nova casa? Sem tudo ainda no lugar, ficaria difícil prover um novo lar para nosso amigo.
Ainda nos preocupava Bambam ficar sozinho, apesar da incontestável melhora após o convívio diário com Frederico. Passou a brincar de bola, a morder garrafas, coisas que eu nunca havia presenciado antes, nem quando Bobinho estava conosco, muito menos após sua partida.
Aí, quando a casa já estava pronta, veio a minha licença médica. Repouso absoluto em retiro de monge budista por 10 dias. E o nosso encontro foi uma vez mais adiado.
Quando saímos do elevador, naquela noite de domingo, ele foi logo nos receber na porta – simples carência ou um possível entendimento de que seríamos seus mais novos amigos pra vida inteira? Oferecido, já se deitou de barriga pra cima, se derretendo com os nossos carinhos, enquanto cuidávamos da parte burocrática – porém não menos importante – da coisa toda.
A partida foi tensa, o fazendo tremer e chorar dentro do carro, talvez pelo nervosismo do novo, medo do desconhecido, ou simplesmente saudade – saudade do costume, da casa, das ruas do Bairro Peixoto, saudade daqueles que cuidaram dele até então. O revezamento entre meu colo e do Fred, no banco de trás do carro, conseguiu trazer um pouco (mas só um pouquinho) de tranqüilidade para nosso amigo.
Chegamos em casa e Bambam veio nos encontrar. Um ligeiro estresse ao entrar no elevador – “quem é esse que quer entrar no meu elevador?” Bambam deve ter se questionado em pensamento, que se fez entender em forma de latidos imperativos. Reconhecimento da casa, comida nova, novos cheiros, novos amigos – opa, ainda não sei fazer xixi no postinho – mas a simples certeza de que ali não faltaria mais amor pra ele.
Conca dormiu na sua caminha, do meu lado da cabeceira. Bambam ainda está desconfiado, enciumado, lá do alto do seu puff, rosna se Conca chega perto na hora do seu carinho, rouba descaradamente os biscroks do outro, mas certamente logo, logo redescobrirá o prazer da companhia de um amigo.
Bem vindo, Conca, essa é a nossa família! Que cada dia que passa cresce mais um pouquinho...




quinta-feira, 30 de junho de 2011

Arquiteto pra quê?


Sempre achei que todo arquiteto é um pouco artista. Fato este somado à minha pluralidade geminiana e necessidade de exibição, talvez tenha sido o maior motivo na escolha da minha profissão: criação. Essa possibilidade de unir criatividade e produção como forma de vida nos eleva a uma categoria de quase semi-deuses. Traduzir o desejo mais íntimo de um ser vivente e transformá-lo em concreto (ambiente construído) – aliando técnica à estética - nos dá uma sensação de poder indescritível. Como crias, nossos projetos nos são únicos, lindos, indefectíveis. Pode perguntar pra qualquer arquiteto qual seu maior prazer dentro do seu ofício. Todos, em unanimidade, responderão: projetar. O arquiteto que não sente prazer projetando deveria ter seguido a engenharia.
Mas, como tudo na vida, existe o outro lado da moeda. Por projetarmos por inspiração e criatividade, muitas pessoas não levam a sério nosso ofício. Assim como a arte, por produzirmos movidos pelo instinto criativo, muitos pensam que nosso trabalho é fácil. Que é só pedir e pronto: lá está nosso projeto, materializado no papel. Quantas e quantas vezes já escutei: “Me dá uma idéia?”, como se projeto não tivesse que ser amadurecido, estudado, repensado. “Faz pra mim uma plantinha?” como se nosso ofício fosse sinônimo de jardinagem. Vamos explicar de uma vez por todas que pra que uma “plantinha” exista – e pra mim, “plantinha” é sinônimo de planta baixa em escala reduzida – são necessários vários fatores que devem ser considerados e que levamos, pelo menos, cinco anos de nossa vida acadêmica e outros tantos de vida prática e de experiência profissional para torná-la realidade.
Não. Definitivamente, não é só pegar o lápis e o papel manteiga e sair rabiscando qualquer coisa por aí, por simplesmente trabalharmos com emoção e inspiração.
Da mesma forma, quando temos um projeto finalizado, entendam: aquele projeto foi pensado – aquele fluxo, aquela implantação (que depende daquele terreno, daquela orientação solar, das posturas municipais para aquela área), aqueles materiais de revestimento, aquele tipo de cobertura (que dependem dos fatores climáticos daquela região), aquele partido arquitetônico, o tamanho daquele cômodo – TUDO foi estudado minuciosamente antes de se transformar – aos olhos de um leigo - numa simples “plantinha”.
Observação: Outra coisa irritante é a mania que as pessoas tem em dizer: “Mas, dá!”. Minha profissão me permite um olhar espacial diferenciado do seu e existem regras mínimas necessárias para circulação, portanto, se eu digo que neste espaço não dá para colocar todos os seus móveis, é porque não dá mesmo.
É claro, que cada arquiteto desenvolve o projeto a sua forma e pra isso existe a liberdade criativa – imagine só todos os compositores só compusessem um estilo musical? Seria impossível só escutar bossa nova, ou ainda imagine o caos se só se tocasse pagode – cada um terá sua maneira de desenvolver aquele “programa”.  O meu olhar sempre será diferente do olhar de outro profissional, e certamente, acharemos soluções diferentes para o mesmo problema.
Ah, outra observação: o trabalho do arquiteto é uma produção intelectual, única. Se você contrata um profissional da área, é porque você espera que seja desenvolvido um projeto exclusivo pra você. Não queira imitar aquilo que viu na casa do seu amigo, ou aquilo que saiu naquela revista. Se você quer copiar alguma coisa, você definitivamente não precisa de um arquiteto. Inspiração sim, cópia nunca!
E falando dos colegas de profissão, o fato de sermos todos “artistas” e termos visões diferenciadas não me permite criticar o projeto alheio só por criticar. Minha vivência (qualquer que tenha sido) não me permite eu faça prevalecer a minha idéia, só porque é minha. O bom profissional, a meu ver, é aquele que consegue atender a todas as necessidades do seu cliente e que consegue ouvir e aceitar as opiniões, filtrar, digerir as críticas. O trabalho em equipe neste caso é perfeito, pois às vezes estamos tão dentro do projeto que não conseguimos ver soluções para certas dificuldades. Já vivi situações de pura inércia criativa ao me deparar com um problema. Foi só solicitar ao colega pra me ajudar naquele layout e um intervalo pro café, que ele me mostrou a solução: limpa, perfeita, que esteve o tempo todo ali, estampada na minha cara.
Eu, Sandrinha, arquiteta, simples mortal, já tive a honra de trabalhar em parceria com grandes nomes da arquitetura nacional – fica aqui minha reverência ao Índio da Costa e Ciro Pirondi – e desenvolvi um enorme carinho e admiração por esses “monstros”. Ao contrário do que se possa imaginar, não existe nenhum estrelismo em suas personalidades, são profissionais super acessíveis, simples, diretos, dispostos a ouvir e a ensinar, mesmo nas situações mais delicadas (e olha que em se tratando dos projetos em pauta, já foram muitas situações delicadas, rs). Hoje, aprendo um pouquinho de interiores com a Ângela Frota, e tenho certeza que esta troca tem sido muito interessante, não só pra mim, mas para ela e toda a sua equipe (não posso deixar de registrar nossa última aventura em terras cuiabanas). E tenho certeza, que para o sucesso de todos estes trabalhos que desenvolvemos juntos, sempre existiu, acima de tudo, respeito pela minha formação profissional.
Então, é isso. Meu recado está dado. Falo na primeira pessoa, mas falo em nome de todos os colegas arquitetos e não da Sandra, indivíduo.
Vamos lá. Você cliente, você colega de profissão: respeite o arquiteto, respeite o meu ofício. Respeite minha forma de projetar. Respeite meus conhecimentos técnicos e até empíricos, porque não? Respeite minhas idéias inovadoras. Aceite a evolução da tecnologia, da maneira de construir. Não é porque há 40 anos se projeta desta forma que a partir de agora não se possa projetar de forma diferente. Vamos aceitar que cada um tem o seu conhecimento específico. Durante uma cirugia, eu tenho lá conhecimento e profundidade pra questionar os procedimentos do cirurgião? No meio de uma audiência, vou eu questionar ao juiz, ao advogado, ao promotor, a melhor maneira de advogar?
Vulgarmente falando: cada um no seu quadrado.
E o meu quadrado, só para informação, ou faço no AutoCAD.