quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Prazo de validade




Momentinho auto-ajuda
De tempos em tempos me proponho a dar uma faxina geral nas minhas coisas. Tá certo, de um tempo pra cá tenho sentido uma necessidade maior de que estes eventos sejam mais constantes, apesar da falta de tempo.
Dou uma geral em tudo, desde roupas, papéis, até pequenos objetos. Coisas que costumam ocupar espaço e que já não me servem de nada... Tenho uma gaveta das camisetas-que-um-dia-vou-usar. Todo dia olho pra ela e digo: putz, não vou me desfazer pq um dia vou usar... e nunca uso, obviamente. Um dia coloco elas pra jogo, junto com os sapatos que saíram de moda, casacos do inverno retrasado... Tudo vai terminar um dia indo embora.
Assim como bens materiais, tenho me exercitado também a verificar o prazo de validade das minhas emoções. Não me apegar a coisas que não me engrandecem, a sentimentos que não merecem a minha atenção, é um exemplo disso. A indiferença - feliz ou infelizmente, não sei ainda - já caminha comigo desde sempre, e se manifesta algumas vezes quando me decepciono com alguém. Então daí, partir para que qualquer sentimento bom ou ruim, em relação ao autor daquela ação, vá aos poucos perdendo a sua validade, é um caminho natural.
A prática é difícil, eu sei. Mas é preciso jogar fora os remédios que venceram. Não adianta ficar os mantendo na farmácia, pois não farão mais efeito, ou pior, ainda corre o risco de nos envenenar....Assim como se desvencilhar de papéis, contas pagas, bilhetinhos antigos, fotos 3X4 de gente que vc nem sabe mais por onde anda, é preciso jogar fora ressentimentos, decepções, indiferenças, perseguições e manias...
Vamos lá, minha gente, já não temos mais idade pra achar que o mundo gira em torno do nosso próprio umbigo, que carregamos a culpa do mundo nas costas, e que se não ganhamos presente no Natal, é pq não fomos bons garotos...
Um dos exercícios que venho praticando durante alguns anos (e bota anos nisso) é aceitar e reconhecer meus erros. Num tem ninguém na vida que nunca errou - por egoísmo, por infantilidade, por displicência, por falta de amor ao outro.
Sou daquelas que assume mesmo: fiz merda. Ponto parágrafo. Pula pra outra linha.
Acho que aceitar o "mea culpa" já é um grande passo para se alcançar a maturidade emocional. Nada dessa estória de querer imputar no outro - no chefe, no namorado, no marido, na mãe, no filho, no amigo - a responsabilidade pelos nossos atos. Pra isso, temos o livre arbítrio e a inteligência (uns mais, outros menos) - para sermos donos absolutos das nossas atitudes.
Então, Alice (aquela mesma, a do País das Maravilhas), pára de show e desce do palco! Somos e sempre seremos hoje consequência das nossas escolhas...
E como na faxina da casa, que a gente joga fora tudo aquilo que já não nos serve, vai ficar aquela prateleira vaga, um espacinho na gaveta pra uma roupa nova, um sapato, novos livros, novas fotos, qualquer coisa que possa ocupar aquele espaço e aquela energia que se instalou ali durante tanto tempo... nunca vi ninguém olhar pra gaveta vazia e se lembrar da camisetinha de malha puída da Oktober de 95 - que era velhinha, mas eu gostava tanto... então vamos parar de chorar pelo amor que acabou, pelo amigo que se foi, pela promoção que não veio...
Como no texto da Martha Medeiros, que é preciso se completar o ciclo sem sair na metade - curtir o doce do início e o amargo do fim - para que novas coisas aconteçam, assim tb é como na nossa "faxina da alma". Tá na hora de mudar a faixa do LP em que a agulha fica pulando. Novas músicas, novas melodias. Novos ritmos. Permitir-se. Virar a página. Sair à francesa. A gente pode achar que não é fácil. Mas ficar se fazendo de vítima, se achando o injustiçado do mundo, não ajuda em nada...
Eu mesma tenho feito minha faxina. Joguei fora rancores, perdoei atitudes, ME perdoei, pq reconheci os meus deslizes... Me permiti ouvir o outro... escutei, absorvi, entendi, raciocinei... concordei ou não, mas reconheci que cada um sempre terá suas razões. Joguei fora aquele remedinho escondido lá no fundo da prateleira que só me fazia ver somente sob a minha ótica - ele já tava pra lá de vencido...
Durante esta semana várias palavras passearam pela minha cabeça.
Comportamento, maturidade emocional, escolhas... Estórias ouvidas, situações vivenciadas, textos lidos...
E num insight veio esse lance de que tudo nada vida tem seu prazo de validade. Uns mais outros menos.
Claro que tem coisas que nunca perdem esse prazo e outras que deveriam ter seus prazos extendidos... depilação e unha da mão por exemplo? Depilação poderia durar uns 6 meses, unha deveria durar pelo menos 1 mês.
Quer saber o que tem prazo ilimitado? Boas sensações. A lembrança de um toque, cheiros. Risadas. Primeiro beijo. Se foi bom, bom MESMO - daqueles de surpresa no ponto do ônibus - nunca vai perder a validade... cheiro de bolo quente no forno... abraço de mãe... carinho de filho...
Então, galera, vambora faxinar a nossa alma... vamos jogar fora aquilo que não vale à pena... vamos perceber que a vida é uma só e ela passa muito rápido... vamos deixar de ser meros coadjuvantes... vamos fazer alguma coisa pelo nosso interior.

Taí o saco de lixo, a flanela e o Veja.
O resto é com vocês.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Amélia´s running


Domingo de sol, acordo atrasada (novidade) vou de moto e consigo chegar a tempo da largada na Delfim Moreira. Ligo pra Vivi que já me espera desde às 7h45min no pórtico, toda equipada e já aquecida pros 6km Leblon-Copa. Estou finalmente de volta, depois de quase 6 meses longe da deliciosa experiência e da energia das corridas de rua.
Ah, vai, tá bom... tô sem treinar... abandonei a academia e o tênis, desde o episódio com a minha lombar... mas o fato de estar ali naquele ambiente me deu algum tipo de incentivo, algum estímulo, pra voltar a fazer qualquer tipo de atividade física novamente.
Correr que é bom, só os primeiros 100m. Minha mais nova companheira de pistas também não se importou em desacelerar e partir pra caminhada. À nossa direita aquele marzão lindo do Leblon, aquele cheiro de maresia, aquele solzinho de 8 horas da manhã maravilhoso. Muito bom partilhar passadas e risadas com gente que consegue acompanhar nosso ritmo e nossas piadas. Em pouco tempo já estávamos as duas em sintonia: a troca de experiências sobre a educação e peripécias dos filhos, sobre a vida atribulada de super-mães, sobre a convivência pacífica, necessária e edificante com nossos ex-maridos e a constante preocupação com o fortalecimento do link entre eles e nossos filhotes...
Mas como tudo o que é muito sério fica muito chato, lá estávamos nós rindo do nosso próprio desafio. Toda vez que a gente passava por um sinal fechado dava vontade de parar e esperar abrir. Avisei a Vivi pra desacelerar nos pardais, vai que a gente leva uma multa por excesso de velocidade? De repente, eis que avisto uma placa indicando “Pão de açúcar”. Ufa, estamos no caminho certo... Teve também aquela corridinha de auto-ajuda descendo a Francisco Otaviano, pois como disse a Vivi “Aqui não tem mar pra incentivar a gente e o Arpoador ainda é a metade da prova”. Antes, pit stop para fotografar com o Lindberg ou com o Rodrigo Bethlem. Opa, brincadeirinha, era com o cartaz dos 3 km...
Vencendo mais esta barreira, descortina-se Copacabana.
Aí ferrou.
Não sabíamos se a corrida já tinha acabado, ou se havíamos nos perdido. O calçadão já tava cheio de velho, cachorro, gringo, ambulante. Só faltou mulata estilo plataforma sambando no meio da rua, acompanhada de alguma bateria de escola de samba. Quase perdidas, continuamos nossa caminhada, pensando o quanto poderíamos cortar de caminho se fôssemos nadando.
Ainda faltava um quilômetro quando avistamos uma pessoa correndo de volta. Como assim? A mulher já estava voltando? De toalhinha lilásinha, medalhinha, bananinha? No sentido contrário? Vambora, Vivi, se não a gente chega na hora da desmontagem do pórtico...
Enfim chegamos, exaustas, felizes, sedentas.
Final de prova com água de côco no quiosque do Índio, visita ao banheiro subterrâneo da orla, sanduba light e pagodinho no ouvido – que ficou na nossa cabeça pelo resto do dia -  “Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia é que era mulher de verdade”.
Será que essa tal de Amélia encarava 6km?
Duvido muito.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sobre internet e coisa e tal...


Dia desses recebi um daqueles infindáveis e-mails de atualização de redes sociais, que me chamou atenção. Era um e-mail de atualização do Facebook que relatava um comentário de uma amiga, sobre o status da outra. Era uma reclamação, quase uma bronca. A questão era sobre um torpedo enviado e não recebido, quando uma ligação seria mais eficiente. Bem, era uma troca de farpas em família, mas serviu para um pequeno momento de reflexão, no meio dos processos e papéis azuis existentes na minha mesa.
Me peguei pensando sobre os avanços da tecnologia e como ela pode unir e afastar pessoas. A internet tem o poder de nos colocar lado a lado de alguém do outro lado do mundo – falo religiosamente todos os dias com minha amiga Michele que está nos EUA - e também é capaz de construir uma muralha entre nossos amigos mais próximos – as vezes convido o Beto pra um café, pelo MSN. Estamos tão escravos dos torpedos, dos pop-ups, e-mails, chats, que esquecemos quanto é bom sentir o calor da voz humana.
Quando reencontrei o Vito, numa tarde dessas tediosas da vida – estávamos no MSN e ficamos pelos menos umas duas horas de bate-papo, até cair a ficha de que poderíamos nos falar pelo telefone, como antigamente. Bem, foram mais outras duas horas de papo, bem mais interessantes, sem nenhum hauhauhau, : ), rsrsrs, naum, entaum, rsrsrs.
Estávamos ontem num restaurante, aquela algazarra de copos e talheres, enquanto a filha adolescente de uma amiga, no meio de uma mesa repleta de crianças e pizzas, se encontrava “autistando” no celular. Pois é, no início não entendi a expressão – será que eu não tava antenada com os "novos" neologismos - mas a minha outra amiga, também mãe de uma pré-adolescente, me explicou: adotar uma postura meio autista, absorta, introspectiva. Ela conseguia, através da internet e pelo celular, estar completamente alheia ao pandemônio que se instaurava ao seu redor. Coisa de doido.
E os sites de relacionamentos e redes sociais? Hoje em dia são tantos que me perco no meio de todos eles: Orkut, facebook, sonico, badoo, twitter... Eles me fizeram reencontrar amigos de infância, me fizeram conhecer “ao vivo” pessoas incríveis – como as meninas do mosaico e do scrap – a aderir comunidades engraçadas, me fizeram estreitar amizades com colegas de trabalho por achar interesses em comum, descobri que tenho amigos que são amigos de outros amigos... me estimularam inclusive a deixar minha veia criativa falar mais alto e criar meu blog... Ah, não posso me esquecer que a internet, através dos grupos de e-mails, está me fazendo vivenciar uma deliciosa experiência com as mães dos amiguinhos do Frederico na creche.
Mas estes mesmos sites mágicos também já me deram - como pra qualquer um de nós, acredito - muita dor de cabeça. Vai ter gente fofoqueira assim lá na web. Me lembro que uma vez, recém- separada, escrevi alguma coisa do tipo “chutei o balde” – referindo-me ao "porre-homérico-de-dor-de-corno" do final de semana. O que teve de especulação em cima dessa frase, vocês não vão acreditar! Queriam saber o que havia dentro do balde, de que cor era o balde, a quantos metros ele havia sido chutado, a que velocidade ele foi arremessado, até se o balde era de plástico... Olha só, como as coisas estão... não se pode nem compartilhar uma derrota – neste caso, meu porre - sem que isso seja motivo da especulação alheia... É engraçado, as pessoas acreditam que fazendo parte daquele seu círculo virtual de amigos, tem o direito de invadir a nossa privacidade e interpretar o que se escreve e o que se vê da maneira que se bem entende...
Tive um ex-namorado que acessou, clandestinamente, é óbvio, minha caixa de e-mails. Não faço a mínima idéia do porquê da investida, com qual propósito, pra me vigiar, me controlar, sei lá. Deve ter tido acesso a minha conta corrente também. Acredito, verdadeiramente, que ele se arrependeu. Após ver meu saldo, é claro.
Depois disso, ele virou ex. É a tecnologia a favor da humanidade.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eu e o tubo


Primeiramente, gostaria de lembrá-los que não sou surfista. Nem passei a andar com meninos que vestem bermudões abaixo da cintura expondo com orgulho suas cuecas e cofres, enquanto deslizam sobre seus skates em half-pipes, fazendo manobras de nomes esquisistos tipo drops e flicks-flacks que desafiam as leis da gravidade. Apesar de com orgulho exibir meu atestado de “ninja girl” – afinal, pra mim nada é impossível - a aventura que vos relato é tão radical quanto, quiçá a mais radical de minha inteira vida.
O tubo a que me refiro é o equipamento necessário para a realização daquele tal de exame de ressonância magnética, que minha lombar em início de deterioração, após constantes reclamações, passou a me exigir. Aconteceu ontem à tarde, depois de um dia absolutamente atípico: uma manhã atribulada após uma noite mal dormida, combinada com comprimidos de relaxamento muscular.
Após uma breve estada em uma salinha minúscula chamada vestiário, onde tive que colocar um avental ridículo, com sapatilhas ridículas – um modelito apropriado pra um fim de semana em uma clínica geriátrica – e uma espera aproximada de uns 30 minutos, lá fui eu, acompanhada do médico gordinho chamado João, praquela sala que mais parecia a antecâmara da Enterprise. Após as perguntas usuais se eu tinha algum metal no corpo, algum tipo de fobia, falta de ar, essas coisas todas (até então desconhecidas para mim), fui orientada a deitar naquela bandeja em forma de cama (minha primeira ilusão) rumo a minha mais recente derrota. Até então eu estava achando tudo normal. João me colocou um travesseirinho fofo, me orientou com a questão do botãozinho vermelho pra qualquer emergência, me colocou um edredonzinho lindo, e eu fui me sentindo tão feliz, tão fofinha, tão quentinha, tão querida, já pensando que seria tranqüilo aquele exame, rapidinho estaria longe dali. Primeiro grande erro: caí na besteira de perguntar ao João quanto tempo demoraria e ele me respondeu em torno de 25 minutos, SE eu não me mexesse.
Pois, a caminha começou a entrar no tubo, o travesseiro já começou a apertar a minha cabeça. Fechei os olhos. Foram os 30 segundos mais longos e horripilantes da minha existência. Abri os olhos e eu continuava entrando no tubo, fechei de novo.
O cara que inventou esse tipo de exame devia ser, além de gênio, um sádico, pois é praticamente impossível não sentir pânico dentro do tubo. Xinguei mentalmente a mãe dele. Abri novamente os olhos e a única coisa que veio a minha cabeça era que eu não conseguir ficar 25 minutos dentro daquela coisa. Começou a me dar taquicardia, falta de ar, pedi perdão pelos meus pecados, descobri a claustrofobia, senti saudades do meu filho, queria a minha mãe, tudo ao mesmo tempo.
Pois é, amigos, amarelei.
Pedi penico.
Fugi da raia.
Perdi, meu irmão.
E confesso que antes de me lembrar da porra do botão vermelho na minha mão, chamei pelo João lá de dentro da máquina. Maior mico.
João me tirou de lá pálida, sem nenhuma gota de sangue. Coitado, ele já devia estar acostumado a ver cenas como aquela. Nem questionou a possibilidade de me recompor e tentar mais uma vez – o que, obviamente, mesmo se isso fosse cogitado, estaria fora de questão. Me falou do tal exame com a máquina aberta – ta de sacanagem? Ninguém avisa ANTES que existe uma máquina aberta? – mas que não havia vaga para aquele dia.
Saldo da tarde: além da derrota, que foi seguida por alguns minutos de vergonha, lágrimas contidas e posteriormente gargalhadas (por parte dos amigos, é claro), me senti um pouco melhor ao conhecer na recepção da clínica (enquanto eu tentava cancelar o exame) um cara forte, de quase 2 metros de altura batendo o pé com a esposa, dizendo que não entrava no tubo de jeito nenhum. Um sorrisinho contido me veio aos lábios. Ainda continuava ninja, afinal.
Bem, como disse Silvana, após essa experiência, sou uma mulher que nunca entrarei pelo cano.
Tubo agora, só no surf. E olhe lá.

sábado, 28 de agosto de 2010

Mundo cão



Lá em casa, além dos canários do meu pai e dos peixes japoneses, o que tive mais próximo de um pet foi uma coelha. O nome dela era Gorby. Roeu todas as portas e fios da casa, mas o que incomodava mesmo era o xixi no sofá. Porque cocô de coelho é fácil de limpar, né? Vem sempre em bolinhas. Minha irmã bem que tentou uma vez adotar um gato pra família, mas meu pai nunca foi muito fã desta conjugação bicho-apartamento.
E quando não se tem mesmo muito contato, não se entende muito bem essa ligação estranha entre o homem e o animal.
Depois, minha proximidade com o mundo canino, foi com a família do Gustavo, que tinha o Luke. Ele era mistura de Yorshire e Poodle, depois de uma descarga elétrica, com os pêlos pra cima. Luke era um amorzinho, morria de medo de fogos de artifício e colecionou zilhões de estórias engraçadas, como o pavor que tinha de carros, ou o dia em que ele fugiu pro apartamento em obras do vizinho e, os pintores, sem notá-lo, o tracaram lá dentro... Lukinho viveu bastante tempo, Frederico ainda brincou com ele. Morreu bem velhinho, quando já não interagia mais com ninguém.
Meses atrás, conheci o Bob e o Bambam, os beagles do Vito. Bambam, o filho e líder, não é muito de dar confiança pra ninguém. Pose austera, porte firme. Olhos amendoados, pelagem castanha. Nervosinho e briguento, meio provando o que as pessoas dizem que o cachorro reflete um pouco a personalidade do seu dono.
Bobinho, como era carinhosamente chamado, o pai, era mais dócil. Saía latindo e abanando o rabinho, naquela atitude de quem não quer briga, só farra. Carente, grudento, manhoso, companheiro. Me lembro quando Vito me contou sobre a primeira vez em que o viu: foi como daquelas coisas de cinema, tipo amor à primeira vista. “Esse cachorro é meu”, tinha dito para si mesmo. E foi.
Frederico fazia o que queria dele. O fazia de cavalinho e levantava suas orelhas como as de um coelhinho. Gargalhava, numa mistura de nervosismo e nojo, com as lambidas dos cachorros no seu rosto. Quando saíamos pra passear, Frederico se sentia orgulhoso, me ajudando a segurar a coleira do Bob.
Quase ao mesmo tempo, conhecendo um pouco mais da Bella, minha estagiária, ela me fez tentar entender, com sua doação e solidariedade aos animais, o que faz alguém recolher cachorros na rua e sair em busca de um novo lar pra eles. Percebi que esta ligação, invisível aos olhos de quem nunca conviveu com os animais, é tão forte quanto vínculos de sangue, vínculos de convivência, de família. O animal se torna sua parte, seu companheiro, sua metade. Ele depende de você pra se alimentar, pra ser cuidado. E você passa a depender daquele amor gratuito e incondicional que ele te devota, ainda que expressados em forma de festa, lambidas e latidos.
Mas, o ciclo de vida dos bichos é diferente. Curiosamente, a missão que eles cumprem em nossas vidas tem prazo de validade determinado. Foram poucos os meses de convívio, mas cheios de ensinamentos. Pude aprender sobre amizade, devoção e dependência. Aprendi um pouco sobre o comportamento do animal, aprendi um pouco sobre sua rotina diária, mas o que aprendi, realmente, foi sobre o verdadeiro e incontestável amor que existe entre o cão e seu dono.
O céu dos cachorros agora deve estar em festa. Tenho certeza, que se este lugar existe mesmo, é um lugar muito legal, cheio de bolas, biscrocks, ração e postes - e nada de pulgas. Deve ser um descampado lindo, cor de rosa, cheio de flores, com sabor de algodão doce, cheio de paz pra acolher estes nossos amigos que nos ensinam tanto todos os dias.
Certamente é um lugar muito, mas muito melhor, que este nosso mundo cão.

Para Bobinho.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Hora do banho


Quando Frederico era menorzinho (agora ele já ostenta orgulhosamente seu status de um rapaz de 4 anos) a rotineira tarefa daquela higiene pessoal chamada banho ainda não era uma tarefa tão árdua. Não era necessário ainda todo jogo de diplomacia e estratégia que hoje sou obrigada a utilizar, toda vez que a palavra banho é pronunciada.
Numa dessas aventuras deste período longínquo, dentro de um “box blindex classic” embaçado pelo vapor da água quente, tive uma das maiores e mais hilárias derrotas de toda a minha carreira materna.
Estávamos nós, enquanto ainda nos divertíamos com espumas e shampoos, quando ele me pediu para que desenhasse um coração no box embaçado. Como toda mãe melosa e artista, desenhei um coração robusto e escrevi com letras garrafais a palavra FRED dentro dele.  Perguntei, na esperança que ele pudesse identificar as letras e saber que ele preenchia todo aquele espaço - até mesmo dentro daquele coração embaçado da porta do blindex - o que estava escrito e ele me respondeu, de pronto: Frederico. 
“Agora eu, mamãe, agora eu!”, me pediu ansioso para desenhar na mesma hora outro coração embaçado, enquanto ele, com o dedo indicador, rabiscava algumas coisas dentro dele. “Olha o meu, mamãe” exibia ,  orgulhoso, sua mais nova obra de arte.
Com um sorriso nos lábios tolos de mãe, na esperança de estar também contida em todo aquele espaço, ainda que naquele coração embaçado do blindex, exclamei: “Nossa, que lindo, filho! E o que está escrito?”
E ele, sem pestenejar, me respondeu, com toda a certeza do universo:
“Peter Parker!”

sábado, 21 de agosto de 2010

Minha Imperatriz


Num período de questionamentos da minha vida, especificamente no início de 2009, recorri ao Tarô como forma de autoconhecimento. Não sou intuitiva, nem tampouco estudiosa, não fiquei aberta aos insights, nem passei a dar consultas (rs). Mas foi um período muito legal de estudo, sobre os Arcanos Maiores e suas inclinações, assim como a iconografia das cartas...E durante todo curso, curiosamente, a carta da Imperatriz aparecia nos meus jogos, como que um alento, como um aviso para que eu tivesse calma, pois o fruto do meu trabalho e esforço um dia seria recompensado...


A primeira vez que vi a cara da Imperatriz – e era a mesma do tarô mitológico – foi um mês antes de descobrir que estava grávida, em uma consulta com uma grande numeróloga, lá em Niterói. Nesse momento, a Imperatriz me mostrava que Frederico já estava pronto para me presentear a incrível descoberta da Maternidade – um bebê enorme, um menino, Clarisse me dizia. Não deu outra. Meu filho já me rondava naquela época, somente aguardando o momento de encarnar.
Se fizer uma reflexão um pouco mais profunda, acho que durante toda a minha vida, vivi a Imperatriz. Nasci numa família de mulheres, com um único homem no comando. Família tradicional, de subúrbio, com educação e padrões morais rígidos. Sempre estive meio fora daquele contexto, meio fugindo as regras. Trabalhei muito cedo, segui minhas vocações. Busquei minha independência. Fui morar sozinha. Me casei, por amor e por vontade, mas aquela cerimônia religiosa era muito mais para dar satisfação à família do que por vontade própria. E mesmo dentro deste casamento, que aos poucos foi transformando a minha própria essência, eu era aquela que fazia, a que efetivamente realizava, a que tinha as responsabilidades com a casa, com o filho, com o outro. Imperando.
Sou geminiana. Não entendo muito dos signos, nem de astrologia, mas posso perceber características geminianas em muitos dos meus defeitos e das minhas virtudes. Uma dessas vertentes é a criatividade e meus vários talentos (olha a Imperatriz aí de novo) – gosto de escrever, sou artesã, estou sempre buscando aprender e fazer coisas novas. Minhas mais recentes aventuras são o tênis – que um dia ainda aprendo, tenho fé – e as corridas de rua. A última empreitada me rendeu 10km no aterro. Movimentação constante, afinal, sou signo de ar.
Quanto à feminilidade, concordo que tenha estado meio adormecida, após esse período meio dormente por conta da separação. Ressurgiu, ainda em ebulição, o que havia sido esquecido – não de fato eliminado, pois mesmo tendo sido uma criança meio nerd, de óculos e maria-chiquinhas, sempre me considerei uma “espécie feminina” interessante. Talvez a Imperatriz esteja querendo me mostrar que de fato, esta “Sandra” deve mesmo despertar, deve voltar à cena.
Quando soube que a Imperatriz queria me falar sobre realização, sair do teórico e ir para prática, me lembrei de uma frasezinha típica, que sempre escuto toda vez que me consulto com alguém: “Você tem mãos de cura”.  Mas o que poderia fazer para efetivamente para, que nesta busca do meu autoconhecimento, eu pudesse efetivamente fazer as coisas acontecerem? Como eu poderia usar meus dons e talentos para o bem, para o bem-estar do outro, para ajuda do outro, para a caridade? Como posso transformar essa necessidade em uma experiência que me leve em direção ao meu autoconhecimento? Bem, sempre me questionei muito sobre o que realmente estou fazendo neste planeta. Qual a minha missão? O que esperam de mim? Não é possível que a minha passagem por aqui seja meramente a passeio, como dizem, existe algo maior na minha essência, que urge, que precisa, que sabe que existe algo maior a ser feito. Essa busca incessante ora está adormecida, ora está efervescendo como agora - e confesso que ainda meio trôpega, ainda se acostumando com as bússolas e mapas disponíveis. O autoconhecimento não é um destino - Marcelo, meu mestre do Tarô, havia me dito. È um caminho construído, edificado dia-a-dia. E eu não consigo desvencilhar a imagem do autoconhecimento ao do desenvolvimento da minha espiritualidade. Ainda não sei se isso tem haver com religião. De tudo o que conheço não encontrei nada ainda a seguir. Acho que não sou daquele tipo que aprecia a “sopa de letrinhas”, mas talvez meu consciente bloqueie aquilo que não consigo entender. Tá na hora de me abrir aos insights. Ta na hora de confiar no Papa, para que ele se torne um Eremita.
Esta noite eu dormi profundamente. Dormi com a carta da Imperatriz. Não sonhei com nada específico. Ainda me sinto muito crua e aprendiz, muito novata. Sei que preciso espiritualizar-me mais – talvez por isso a aparição do Papa nos meus últimos jogos.
O que preciso? Deixar-me conhecer. Compartilhar experiências. É isso que levamos dessa vida. Um pouco de todo mundo que conhecemos.
Tenho certeza que o Tarô irá me ajudar – e muito – a me redescobrir.
A descobrir minha Imperatriz. Diariamente.